Adoro surpresas boas, como toda a gente.  Depois da caminhada até às abandonadas Termas Romanas em Monchique, o Chef João Marreiros convidou-me a experimentar o seu mais recente projeto.

 

Não estava à espera.

 

Ele bem me tinha dito que tinha passado por restaurantes famosos.

 

Mas não estava à espera.

 

O espaço é pequeno, mas acolhedor. Adoro a decoração. Paredes brancas e chão cinzento, com apontamentos rústicos, com autênticos troncos no teto. O chão desnivelado dá-lhe ainda mais um toque autêntico. É limpo e simples. Não é um espaço pretensioso mas diz-nos que estamos num sítio diferente.

Mas o que me fez abrir a boca foram os pratos. Não só os sabores são harmoniosamente pintados em pratos que nos lembram o mais alto fine dinning, mas nos trazem memórias de cozinhados da avó, aprimorados a um ponto que piscamos os olhos de surpresa.

Ele consegue-o através de produtos quase esquecidos, como o tomilho cabeçudo ou beringelas de um tamanho de um tomate cherry. São sabores próximos, e quando digo próximos, são produtos que ele mesmo encontra num raio de 100 quilómetros (atestado pelo mesmo, com orgulho). São produtos não só nacionais, mas tradicionais. O Chef João Marreiros vai pessoalmente colher ou encontrar-se com os produtores locais para garantir não só a sua qualidade, mas origem.

“Temos que usar estes produtos, senão caem no esquecimento.” – Diz-me com preocupação. Para entendermos este Chef temos que entender de onde ele vem. Vem de Monchique, a parte ainda intocada pelo turismo e rebaldaria no Algarve. Foi aqui que cresceu, próximo da natureza, onde ganhou um respeito e conhecimento que poucos Chefs infelizmente não têm. Aquando a nossa pequena excursão qual irmandade do anel, pude verificar esta paixão em enumerar espécies de plantas e o entusiasmo em reconhecer a natureza. Quem me conhece sabe que sou transmontano e que a paixão de vaguear por montanhas meio perdido sempre foi uma paixão e necessidade. Mas confesso a minha profunda ignorância em relação ao reconhecer o que os meus olhos veem. Se estivesse perdido no meio de um monte por dias, provavelmente iria comer qualquer coisa venenosa e por ali ficaria.

Um raro verdadeiro “da quinta para a mesa”. Com a quantidade de trabalho sobre-humana, há que perguntar: – Como consegues?

– Atendo no máximo 3 mesas. Não consigo mais. – Sim, porque cada refeição é única, com produtos frescos, sazonais e autênticos.

E aqui é que está a surpresa. A pensarmos que cada refeição é única, pensamos na falta de equilíbrio de um improviso apressado. Mas não. A surpresa está em que cada prato é harmoniosamente cuidado. Os sabores são desenhados com a genialidade de um pintor que cria uma obra prima com um traço seguro, mas rápido. Aqui não se provam caricaturas nem esboços. Aqui prova-se um expressionismo seguro de si mesmo, na mão de um só homem.

 

 

 

 

Disclaimer: Decidi ajudar o Chef João a promover o seu projeto com conteúdos e consultoria de marketing.

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